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Editorial | A encenação da normalidade em meio ao escândalo

Sob o olhar do mestre, Allyson Bezerra lapidava sua psicopatia, identificada facilmente por quem já lidou com um. 

A reação do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, após a operação da Polícia Federal que atingiu a Prefeitura, diz mais sobre seu método político do que qualquer nota oficial poderia explicar. 

Não se tratou de transparência. Tratou-se de controle de danos. 

Ao correr para entrevistas imediatamente após a deflagração da operação, Allyson não buscou esclarecer fatos — buscou ocupar espaço. Na política moderna, especialmente para quem domina a lógica da comunicação, desaparecer é admitir fraqueza. Falar rápido, ainda que vazio, virou regra básica de sobrevivência. E o prefeito seguiu o manual à risca. 

O problema é que o roteiro não combina com o histórico. 

Este blog denunciou ainda em 2023 indícios de desvio de recursos dentro da Secretaria Municipal de Saúde. Houve denúncia formalizada no Ministério Público do RN. Houve documentação. Houve gravidade. E, ainda assim, não houve comoção, coletiva, indignação nem pressa por parte da gestão municipal. O silêncio foi absoluto. 

Agora, quando a Polícia Federal entra em cena, a postura muda. O prefeito se apresenta como se fosse um observador externo, quase um comentarista do próprio governo. É a tentativa clara de dissociar a figura do gestor da estrutura que ele comanda — como se a Prefeitura fosse um ente autônomo, sem comando político. 

Essa dissociação não é ingenuidade. É método. 

Allyson Bezerra não se comporta como um gestor surpreendido por irregularidades; comporta-se como um ator experiente, treinado para manter a narrativa mesmo quando o cenário desaba. Não há indignação proporcional à gravidade dos fatos. Não há constrangimento público. Há apenas performance. E essa performance não surgiu do nada. 

O prefeito é produto de uma escola política que não prioriza gestão, planejamento ou responsabilidade institucional. Prioriza retórica, vitimização e construção de imagem. Uma escola da qual Kelps Lima é referência no Rio Grande do Norte — especialista em formar quadros politicamente competitivos, ainda que administrativamente frágeis. 

O resultado é um político que fala muito, explica pouco e nunca assume nada. Tudo acontece “no governo”, mas nunca “por causa do governo”. Tudo é grave, mas nada é pessoal. Tudo exige investigação, menos o que foi denunciado antes da Polícia Federal bater à porta. 

O mais preocupante, porém, não é a investigação em si — isso cabe às autoridades. É a naturalização do escândalo. 

Quando um prefeito reage a uma operação policial com tranquilidade cênica, frases ensaiadas e zero autocrítica, o recado é claro: o problema não é o que aconteceu, mas como isso repercute. A prioridade não é corrigir rumos, mas preservar capital político. 

Se existe algo realmente alarmante em todo esse episódio, é a frieza com que se trata um fato dessa magnitude. A corrupção vira ruído. A investigação vira detalhe. A Prefeitura vira palco. 

E o prefeito, mais uma vez, escolhe o papel de protagonista — não da solução, mas da encenação. 

A Justiça fará sua parte. 

A sociedade precisa fazer a dela: não confundir discurso com responsabilidade, nem atuação com liderança. Porque governar não é falar bem diante das câmeras. É responder, de verdade, pelo que acontece sob seu comando.


Cyrillo

Blogueiro político em busca de divulgar as verdades escondidas nos atos dos atores políticos.

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