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O medo que paralisa o Congresso: como a dependência jurídica alimenta o poder do STF


Alexandre de Moraes recebeu a missão e garantiu que cumpriria. Lula de inelegível a presidente; Bolsonaro de presidente a preso. Quem ousa peitar as decisões do "Presidente" de fato?


Da redação: 
Por Cyrillo Fernandes
00:45 - 25/11/25

A discussão sobre os limites do Supremo Tribunal Federal e a inércia do Congresso Nacional nunca esteve tão evidente. Números recentes mostram que cerca de 131 congressistas – 111 deputados e 20 senadores – enfrentam processos criminais ou inquéritos no STF. Outras estimativas chegam a 150 parlamentares com algum tipo de pendência na Corte.

Essa realidade ajuda a explicar um fenômeno histórico no Brasil: o Congresso tem medo do STF — e esse medo molda decisões, silêncios e omissões que se acumulam há décadas.

A engrenagem do silêncio: por que nunca se vota o impeachment de ministros

A Constituição prevê que apenas o Senado pode julgar pedidos de impeachment contra ministros do STF.

E pedidos não faltam. São dezenas, protocolados por cidadãos, juristas, parlamentares e entidades civis ao longo dos anos.

Mas o resultado é sempre o mesmo: nenhum prospera.

Há quatro pilares para isso:

1️⃣ 

Dependência jurídica direta

Grande parte da classe política está nas mãos do Supremo.

Seja em inquéritos, ações penais ou delações que citaram parlamentares, o fato é claro: o STF decide o futuro jurídico de mais de cem congressistas.

Essa situação cria uma relação desigual:

quem deveria fiscalizar teme ser fiscalizado.

2️⃣ 

Risco de retaliação

Nos bastidores, há o discurso repetido:

“Entrar em rota de colisão com o STF pode custar caro”.

Essa percepção faz com que líderes partidários evitem pautar qualquer iniciativa que possa ser interpretada como confronto.

3️⃣ 

Custo institucional e midiático

O impeachment de um ministro é politicamente radioativo. Criaria tensão entre Poderes, crise institucional e forte repercussão pública.

Para senadores que também dependem da imprensa e de grupos econômicos, o custo é visto como maior que o benefício.

4️⃣ 

Papel da Presidência do Senado

Historicamente, presidentes da Casa adotam postura de “blindagem institucional”:

engavetam pedidos, evitam desgastes e apostam na estratégia do tempo para dissipar crises.

Assim, o sistema se retroalimenta:

O Senado não age porque tem medo, e o STF amplia seu protagonismo porque não é contrabalançado.


O papel de Alexandre de Moraes: um sintoma da fraqueza do Legislativo

Entre os ministros mais contestados, Alexandre de Moraes se tornou símbolo dessa era de hiperprotagonismo judicial.

Críticos acusam Moraes de:

  • tomar decisões monocráticas de forte impacto;
  • avançar sobre temas sensíveis do Legislativo;
  • determinar medidas que geram questionamento social;
  • investigar e punir parlamentares de forma inédita na história recente.

Seja qual for a avaliação, um ponto é incontestável:

nenhum ministro conseguiria exercer tamanha influência se o Congresso cumprisse integralmente seu papel institucional.

Raízes históricas: como chegamos até aqui

A relação tensa entre STF e Congresso não começou agora. Ela se consolidou em três fases:

🕰️ 

Anos 1990–2000: o STF se expande e o Legislativo se omite

Com a redemocratização, o STF ganhou novas competências, mas o Congresso nunca estabeleceu mecanismos de controle claros.

🕰️ 

Anos 2010: Lava Jato e a “judicialização da política”

A operação deslocou parte do poder político para o Judiciário.

Parlamentares passaram a temer investigações e delações homologadas no Supremo.

🕰️ 

Anos 2020–2025: Supremo assume protagonismo

Com crises políticas sucessivas, disputas eleitorais e tensões democráticas, o STF passou a intervir de forma mais frequente e assertiva em conflitos envolvendo o Congresso.

Nesse cenário, a omissão legislativa se tornou um dos fatores centrais do desequilíbrio entre os Poderes.

A equação do poder hoje

Mais de 100 parlamentares com pendências no Supremo + Senado que engaveta pedidos + ministros que decidem sem contraponto = STF hiperfortalecido.

É um arranjo institucional que gera consequências concretas:

  • ministros se tornam árbitros políticos;
  • o Congresso evita qualquer enfrentamento;
  • decisões polêmicas são tomadas sem debate público;
  • e a percepção de “temor” se espalha entre parlamentares.

Conclusão: um Legislativo acuado permite um Judiciário sem freios

Enquanto o Congresso não resolver sua dependência jurídica e não assumir o papel constitucional que lhe cabe, o Brasil continuará vivendo sob um desequilíbrio evidente:

um STF que acumula poder e um Legislativo que opera com receio.

Esse medo — alimentado pelos processos, pelas investigações e pela insegurança política — explica por que tantos pedidos de impeachment dormem nas gavetas do Senado e por que críticas às decisões da Corte raramente se transformam em ação institucional.

E assim, ano após ano, o silêncio do Congresso segue sendo o maior aliado do protagonismo do Supremo.


Cyrillo

Blogueiro político em busca de divulgar as verdades escondidas nos atos dos atores políticos.

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